Vida expatriada: a lição de hoje

Eu gosto sempre de ler artigos em blogs ou fóruns de expatriados pra saber da opinião de alguns sobre como é viver “longe de casa”. Um dos pontos que mais vejo sendo discutido é a questão do idioma, de como as pessoas se esforçam para aprender o idioma local a fim de terem a chance de uma verdadeira aceitação no novo país. Afinal, para conseguir tirar o máximo de proveito do novo país com pouco estresse, é realmente importante entender o que acontece ao seu redor.

E isso eu tenho feito. Tenho tentado todos os dias entender mais e ser melhor entendida. Assisto televisão, leio cartazes nas ruas ou qualquer tipo de material de leitura que possa chegar nas minhas mãos, falo com meus inúmeros erros, tenho tentado deixar o inglês de lado e mesmo que na minha cabeça as frases se formem em inglês espontaneamente, ainda tento me expressar em alemão…mas como qualquer pessoa que vive como estrangeiro sabe, os nativos sempre estão esperando mais da gente, portanto aqui estou eu, tentando abraçar uma nova cultura e fazendo tudo o que posso pra me adaptar. Só que não é simples, mesmo com todo esforço.

O desânimo vem quando enfrentamos algumas situações chatas em meio a esse processo de integração, como hoje por exemplo, enquanto eu estava na fila do supermercado pra pagar. Bem no comecinho da minha jornada na Alemanha em 2009, eu sempre foquei nas coisas mais básicas e essenciais do cotidiano como uma forma de levar a vida mais facilmente, e uma delas foi aprender bem os números e a linguagem usada nos supermercados. De alguma forma eu me sentia segura de ir ao supermercado, pois somente com um pouco de lógica e meu entendimento super básico de alemão eu conseguia me virar fácil, sem precisar recorrer ao inglês ou ficar confusa.

No entanto, hoje foi um dos dias mais confusos que vivenciei aqui até agora. Eu peguei umas uvas, que vem dentro de um saco de papel, e como de costume fui pesar. Pesei e colei a etiqueta com o preço no saco. O saco acabou rasgando um pouco e rapidamente coloquei tudo dentro de um saco de plástico. Aí pensei, a pessoa do caixa vai reclamar porque o preço está por dentro, foi aí que tive a brilhante ideia de descolar a etiqueta do saco de papel e colocar no saco de plástico. Acontece que veio papel junto e a etiqueta ficou meio rasgada. Tudo bem, isso não é problema, a máquina vai conseguir ler o preço, eu pensei.

Quando fui passar minhas compras, a mulher do caixa olhou a etiqueta no saco de uvas e o levantou, como se estivesse verificando o peso. De repente ela me olhou com uma cara vermelha e começou a falar alto. O tom da voz dela me fazia acreditar que eu tinha feito algo absurdamente idiota e naquele momento gente, eu fiquei surda. Eu não conseguia entender uma simples letra que saía da boca daquela mulher. Eu só me perguntava o que diabos tinha de errado com o saco de uvas.

Foi aí que eu tentei, em alemão, explicar que não estava conseguindo entendê-la. Ela soltou aquele suspiro que expressava: “que idiota!” levantou e saiu. Eu entrei em pânico, fiquei com vontade de largar tudo lá e sair correndo pra bem longe daquele povo que me olhava.

Ela voltou com o saco, já com uma outra expressão no rosto. Ela pensou que tinha mais uva no saco do que o preço dizia e foi na balança conferir. Eu juro que nunca me senti mais fora de lugar e de certa forma humilhada como hoje. Ela não falou nada, apenas passou minhas coisas, me disse o total e paguei, com a garganta doendo de raiva, super envergonhada e me sentido um “Zé ninguém”.

Eu fui todo o caminho de volta pra casa pensando no acontecido e o fato de ela ter fingido que nada tinha acontecido só me fez ter certeza de que eu não sou nenhuma estúpida e nem inferior. Na verdade eu comecei a me sentir melhor e superior a ela, pois eu, em hipótese alguma, falaria com alguém que não fala a minha língua usando o tom de voz que ela usou comigo. E aquele povo me assistindo? Vou te contar! Se algum dia eu presenciasse uma situação similar, não sendo a vítima, eu sairia do meu lugar e tentaria ajudar.

A experiência foi negativa e super desmotivante, mas eu sou consciente de que momentos como esse irão sempre acontecer, comigo que moro aqui há pouco tempo e com quem já mora aqui há anos também. Aliás, situações assim podem acontecer em qualquer lugar. No entanto, eu acredito que tudo que acontece é para o  nosso crescimento. A gente aprende também com situações negativas! Agora me sinto ainda mais motivada a elevar meu nível a ponto de poder me defender corretamente e até xingar.

A minha lição de hoje é que jamais devo permitir que coisas assim me coloquem pra baixo. Pelo contrário, quero continuar focando nas coisas positivas que esse país tem a me oferecer. E isso serve pra todos nós, porque se focarmos mais nos pontos e experiências negativas a vida “longe de casa” acaba se tornando um fardo difícil de carregar…e eu um dia ainda quero poder chamar esse país de casa.

Tudo é uma questão de manter o foco!

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26 comentários sobre “Vida expatriada: a lição de hoje

  1. Olá Ana! Sei q o post é antigo, mas sou solidária aos teus sentimentos! Nunca passei por nada parecido no supermercado, mas sempre q renovo meu visto me sinto uma mentirosa ou uma bandida. Os funcionários do Burgerbüro são sempre mto mal humorados e desconfiados, parecem estar sempre procurando um motivo pra encrencar. Saio de lá sempre me sentindo humilhada. Meu noivo é alemão e é uma pessoa maravilhosa, mas os alemães no geral são ríspidos e não se solidarizam fácil… mesmo percebendo seu esforço para falar o idioma, não fazem questão de te entender ou falar pausadamente (e com educação). Mas tocamos a vida. O nosso alemão,com o tempo e estudo) nos permite evitar e se defender desse tipo de situação. bjo

  2. Ok, faz um tempão desse post, mas gostaria de dizer que também já passei por algo semelhante. Entretanto, não na Alemanha e sim na Itália,terra onde as pessoas costumam falar num tom mais alto por natureza. Estava turistando em uma cidade pequena da região do Veneto quando resolvi comprar uma água mineral e algumas frutas no supermercado.
    Até aí, nada demais, entretanto na hora de passar pelo caixa, aquele detector de metais “maldito” começou a apitar. E a caixa começou a gritar comigo em italiano para que eu abrisse a bolsa e mostrasse o que estava “roubando”. E sabe o que é bom fazer na hora em que um estrangeiro grita com você no idioma dele? Mostrar que você também fala um língua estrangeira. Fiz a “louca”, gritei com a mulher em português e sabe o que ocorreu? Parece que na Itália ganha a briga quem fala mais alto e eu ganhei. Ela baixou o tom de voz, pegou o meu dinheiro, e ainda agradeceu por eu ter comprado lá. Ou seja, essas coisas acontecem com todo o mundo.
    Boa sorte na Alemanha

    • OLá Tati! Poxa, que chato ler que isso também aconteceu com você. Pois é, na época eu era tão “inocente” e tive medo de reagir, na verdade me faltou uma ação na hora. Mas hoje em dia, se algo parecido acontecesse, eu com certeza teria uma reação diferente. Bom, a gente vai vivendo e aprendendo né?! Nada melhor que o tempo e as experiências, sejam elas boas ou ruins, para nos fazer amadurecer. Boa sorte pra você também e obrigada por compartilhar sua experiência aqui. 🙂

  3. Então, Ana, pelo tempo que já passou desde a data deste post eu suponho que você já tenha evoluído em seus estudos da língua alemã para pedir educadamente a moça ‘por favor, fale mais baixo, seja mais educada’ quando na verdade da vontade de dizer ‘ trate-me com mais respeito e faça o seu trabalho direito!’. Eu espero que isso não se repita, mas se algo parecido acontecer, o tal estabelecimento comercial deve ao menos se desculpar com o cliente ! A tal caixa ficou foi é com inveja de você que é brasileira e linda! hehehe Sobre os alemães, pouco posso dizer, pois eu nunca estive ai e conheço pouquíssimos alemães que vivem no Brasil e são bem legais por sinal. Meu namorado e dois amigos estiveram a passeio na Alemanha e tiveram boa impressão. O meu namorado só achou graça que certa vez na Baviera um menino de 6 anos mostrou língua pra ele no restaurante..hehehe . e ele riu de cair pra trás. O meu namorado é fluente em inglês e na língua alemã também. Já meus amigos não falam alemão, mas falam inglês, e estavam fazendo curso de música na fronteira com a França e certa vez não foram bem tratados num restaurante, mas segundo eles ‘gente que trabalha mal ‘ tem em qualquer lugar. Não fique triste, gente boa e ruim, tem em qualquer cultura, ok. Eu pretendo ir a Alemanha, talvez no fim deste ano,m as antes irei a Inglaterra visitar meus parentes – que vivem lá há pouco tempo – e tentar melhorar meu ‘inglês’ que muito difícil. O meu cunhado viveu em Portugal, Espanha e agora está há 6 anos na Inglaterra (Cambridge e Liverpool) e ele adora a Inglaterra, acha as pessoas de uma extrema educação, bem, agora ele vive com uma inglesa super lega e está muito feliz. Eu gostei do que você disse aqui, e você está certa, temos que focar em nossa felicidade, nossa vida, seguir adiante e perceber o lado bom de nossas experiências. Grande abraço, cuide-se!

    • Michela, muito obrigada pelo comentário carinhoso. O tempo passou e eu fiquei melhor no alemão. Sinto que hoje estou muito mais preparada para uma situação assim. Com certeza eu reagiria de outra forma. O fato é que quando a gente é que está no país dos outros, a gente fica meio com o pé atrás de reagir, assim como faríamos na nossa pátria. Mas hoje, como cidadã, acho que tenho o direito sim de me proteger. Acho que hoje eu socaria o cacho de uvas na boca dela! uahauaha
      E que legal saber que de alguma forma vc tem laços com a língua alemã. Você não tem vontade de aprender também? Seu namorado seria um ótimo parceiro para conversação.
      Eu adoro a Inglaterra e já estive em Liverpool! Se vc for lá dessa vez, lembre-se de mim! hahaha
      sou louca por essa cidade, porque sou fã dos Beatles! Espero que você venha conhecer a Alemanha. É um país lindo! Mas não se engane com meu post, as pessoas são sim muito simpáticas. Esse caso do supermercado foi um caso isolado. Claro, assim como em todo lugar tem gente chata e gente legal. Mas uma coisa é certa, os alemães são muito educados e gentis. Essa é a opinião minha. Tem gente que discorda. 🙂
      Volte sempre! Te achei muito simpática também! 🙂
      beijão

  4. Pingback: Quer pagar quanto? | Panela Européia

  5. Que grosseria. Tô chocada de verdade. Tô lendo aqui os arquivos pra entender como vc foi para na Alemanha e me deparo com isso. Penso que algo assim jamais aconteceria na Irlanda, por exemplo. Mas é cultural, né?
    Acho que eu no seu lugar teria chorado na hora. Odeio ser maltratada. Quem gosta, né?

  6. hehhehe, eu xingo em portugues quando isso acontece 🙂
    Okay Okay, nao eh a melhor forma ainda mais se vc vai sempre nesse Mercado,
    Mas cada pouco na rua, alguma velhinha mal humorada reclama se eu estou a um passo da via da bicicleta ( eu esqueco ! sei que tenho que melhorar esse ponto e ter mais atencao ), mas tem umas muito mal humoradas : e eu retruco em portugues: vai a Me&^$ …..hihiihihihi
    Reclamam demais !

  7. Aninha,
    Convenhamos: os alemães não são famosos pela sua gentileza… São práticos, perfeccionistas e ai de quem desvia um tiquinho da conduta esperada. Claro que isso tem um lado positivo, o país é uma tetéia, tudo funciona que é uma beleza. Mas na lida com o ser humano, alemães precisam evoluir um bocado…
    Essa caixa do supermercado foi uma grossa nojenta. Tente esquecer, ou superar e não deixe que isso te afete. Outras situações parecidas virão e você precisará ser forte.
    Quanto aos supermercados alemães, vou te confessar: eu ficava muito ansiosa na hora de passar minhas compras, porque as caixas não ajudam a embalar nada e se você atrasa um pouquinho na hora de jogar as coisas na sacola, o pessoal que está na fila te acha uma retardada. Eu ficava realmente ansiosa. Aqui no Brasil é exatamente o contrário, os caixas são super lerdos e param tudo para ajudar os clientes a embalarem as compras.
    Oh céus, não há um meio termo entre estes dois países?
    Acho que seria um lugar sensaciona: a Bralemanha!
    Beijo, linda.
    keep your head high!
    Márcia

  8. Tenho uma amiga que mora em berlim ha bastante tempo e ela ja passou por coisas assim, hoje em dia acostumou, Ela diz que é bem comum isso dos Alemães serem desse “jeitinho”. Uma vez algo similar aconteceu comigo em Bruxelas, eu voltei pra casa chorando, nem era de raiva, era de tristeza mesmo, acho que nada justifica maltratar alguém assim em público. Mas é, culturas diferentes…

  9. Ana, querida
    só tenho a acrescentar o seguinte: não se estresse, mas atue com firmeza! Anote o nomezinho de quem te trata mal, entre em contato com o SAC da firma, assessoria de imprensa ou qualquer coisa do gênero e relate o que aconteceu. Fiz isso depois de uma grosseria da caixa do Lidl. Não deu 5 minutos e um responsável estava me ligando de volta. O que fizeram eu não sei, mas a grossa sumiu daquela filial.
    Se não funcionar, jogue a m…a no ventilador das mídias sociais… elas costumam dar um jeito 😉
    Beijo e força!
    Lu

  10. Meninas, eu agradeço muito por todos os comentários e pela troca de experiências. Mas me deixa triste saber que coisa parecida já aconteceu com algumas de vocês…
    Mas bola pra frente né!? Muita sorte pra nós todas e que nunca baixemos nossas cabeças!
    Um grande abraço!!!

  11. Que chato tudo isso Ana 😦

    Empatia e uma palavra que alguns Alemaes desconhecem…Mas, o mais importante e uma consciencia limpa e leve, nao e mesmo?

    Bjo do Allgau,
    Marianna

  12. Oi Ana,
    Não é fácil mesmo! Já passei por uma situação parecida, foi um saco! Me deu vontade de estrangular a pessoa de tanta falta de educação, cuidado com o cliente! O que me faz ficar um pouco mais tranqüila é saber que esse tipo de gente está em todos os lugares, inclusive no Brasil! E eu aprendi uma coisa vivendo aqui, temos que tratá-los com a mesma grosseria que esses “alguns” nos tratam, eles mudam a atitude rapidinho…é engraçado!!!
    Boa sorte para nós, não é?
    bjo

  13. Sei bem como é a sensação. A questão da Alemanha é que, apesar de se esforçarem (e conseguirem) em ser muito legais com os estrangeiros devido ao trauma histórico que têm, a verdade é: o alemão em geral gosta de alemão; ele gosta das coisas alemãs, dos produtos, dos serviços, das pessoas. Valorizam mais, sem dúvida. E isso é muito difícil pra gente, se sentir inferiorizada sendo que aqui no BR pertencemos às pessoas mais valorizadas (estudadas, bem vestidas, etc). Mas aí entra aquilo que você falou: a gente tem que se policiar constantemente pra não se sentir assim. A gente não é nem um pingo inferior. É tão ÓBVIO que você é muito melhor do que essa caixa troglodita. Quem ela pensa quem é? Enfim, bola pra frente e um dia a gente levanta a voz de volta. But it takes time! Bj

  14. Oi Ana,
    olha eu tenho muita dificuldade com línguas, imagina alemão… então liguei o botão “foda…” (sorry…). Mas por sorte até hoje eu não fui destratada.
    Que chato isso viu, mas gostei do que escreveu no final “manter o foco”, isso eu falo para Ivan sempre, pois ele esta um pouco de saco cheio com alguns alemães.
    Beijokas e bom final de semana

  15. Já vivi algo praceido no ALDI, desde entao nunca mais entrei naquela loja, reclamei na central por email e eles falaram que iam tomar providencia, pensei providencia agora deve ser nome de cerveja tb.

      • Ha, e eu que achava que a coisa era sempre pessoal. Por eu ser descendente de japoneses ( sim, sou uma japa brasileira na alemanha!), qdo dou alguma bola fora, povo ja me olha como se eu fosse uma filipina comprada por catálogo….
        Por essas e outras, meu desafio eh de falar alemao o suficiente para me impor, responder a desaforos como responderia na terrinha, afinal, meu marido nao me achou em qualquer esquina e me trouxe pra ca.

        • Ah, querida! Fique tranquila que o negócio não é pessoal!
          Mas é isso, tudo deve nos servir de motivação pra sempre aprendermos mais. Desde o acontecido, tenho aprendido um vocabulário bem “legal” pra usar nesse tipo de situação. hehehe
          Tudo de bom!
          bjo

  16. Ana eita essas situacoes nos tiram do eixo, olha já aconteceu comigo situacoes assim no trabalho, as pessoas bufam, mas nao sao todas, uma aqui outra aculá, no comeco a gente engole até ir ganhando espaco aos poucos, mas depois nao aguenta e bufa tb, aí eles paralisam, mudam o tom, oxe a gente é gente né tem folego e temperamento hum… só dar mais tempo, mais seguranca no alemao e em vc, nao q tu nao tenhas confianca em ti, sei q tens, aguenta firme e essa nao será a primeira e nem a última, vamo-q-vamo 😉

    • É isso mesmo. Tem que falar mais alto do que ele ou cobrar deles a desculpa, que deveria ter vindo por ela ter te tratado mal e duvidado de você. Não deixe passarem por cima, pois engolir sapo só faz mal. Desopile o fígado. E pergunte o que está acontecendo em inglês. Eles entendem. Eu também fui muito maltratada no Ikea e também não soube me impor. Mas agora a estória é outra. E aprendi a lição com eles: falar como eles falam ou mais alto.

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