Sobre os encontros bons da vida

Quem já clicou no link sobre aqui do blog, viu na descrição que eu sou Química. Escolhi essa profissão por causa de dois grandes professores do ensino médio que me fizeram gostar muito da matéria. Em 2001 entrei na uni, me formei, fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado. É, fui bem longe! A decisão de fazer o doutorado foi simplesmente por um único objetivo, o de ser professora. Atualmente, para ser professor nas universidades e centros tecnológicos, um dos requisitos é ter esse título. Mas antes de ingressar no curso de doutorado, eu fui professora da rede estadual. Lecionei física e química em dois colégios, sendo um deles, localizado em uma das regiões mais pobres e perigosas de fortal. Tive aluno de todo tipo, dos que apareciam drogados aos que queriam me enfrentar. Muitos deles não me respeitavam pela minha idade. Tá, não vou entrar em detalhes. Mesmo assim, foi um ótimo período da minha vida.

Na época, eu tive um aluno do segundo ano que era simplesmente excepcional. Ele era muito inteligente e desenrolava todos os problemas que eu passava com muita facilidade. Eu lembro que fazia desafios com questões mais complicadas e ele sempre chegava com o resultado correto. Eu via no rapaz um grande potencial e vez por outra, o incentivava a se preparar para o vestibular. A resposta dele era sempre a mesma, que não podia, porque tinha que arranjar um emprego pra ajudar em casa, já que ele era o único homem da casa. O objetivo dele era terminar o segundo grau, encontrar um emprego e ganhar o suficiente para ajudar à mãe. A irmã dele também foi minha aluna, mas desistiu dos estudos depois que se envolveu com drogas. Deixei a escola antes do final do semestre, depois que um aluno, que não era meu, me assaltou e espancou. Ele era menor e me aconselharam a não ir fazer reconhecimento, pois a consequência mais tarde seria pior. Fiquei com medo, saí do colégio e nunca mais tive notícias do F.

A vida é dura mas também é cheia de boas surpresas…

Nunca, nunquinha me passou pela cabeça, encontrar o meu ex-aluno exatamente no lugar onde passei os dez anos mais bem vividos da minha vida. Ele me reconheceu e de longe fez um sinal com a mão de “me espera que to indo aí”. Perguntei o que ele andava fazendo na uni e ele respondeu: estudando Física! Gente, física não é pra qualquer ser humano…acho que é o departamento que concentra o maior número de nerds da capital. Fiquei tão emocionada, tão realizada, que me faltaram palavras e meus olhos lacrimejaram. Por fim, ele me disse que também vai fazer mestrado e seguir a carreira acadêmica. É sempre assim, a vida sempre nos dá boas recompensas pelas boas sementes que plantamos! Eu nunca senti tanto orgulho de uma pessoa. Também senti orgulho de mim, depois que ele falou que eu fui um grande exemplo de incentivo pra ele. Orgulho de ter ajudado de alguma forma a deixar esse rapaz de fora das estatísticas desse mundão de violência. Tenho certeza que ele será admirado e considerado um grande exemplo para muitos outros quando contar sobre trajetória que o fez ir tão longe também.

***

É MUITO TRISTE ver a situação das escolas brasileiras. As escolas públicas se sustentam hoje mais pela boa vontade e solidariedade dos educadores do que pelas políticas públicas que deveriam fazê-las funcionar como deveriam. Eu tenho visto na tv que a violência tomou uma proporção tão grande, que algumas até pararam de funcionar por não aguentarem mais tantos furtos. Além de todo o descaso com a alimentação, material didático e infraestrutura decadente, a violência é agora mais um outro agravante. Quem nesse mundo consegue dormir tranquilo depois de roubar merenda escolar??! Eu e o F. fazemos parte da grande minoria que conseguiu vencer muitas barreiras sociais (sim, eu também sempre estudei na rede pública!). Mas o desafio principal é vencer a chamada síndrome da autoexclusão, ou seja, aquela que faz o aluno pensar que não é bom o suficiente, que não tem capacidade para ingressar numa universidade por causa que a escola é pública e ruim ou que o tão sonhado curso tem o nível muito alto. Esse é um desafio próprio, que deve ser combatido com muito esforço, empenho e muito incentivo. O F. conseguiu e está aí como prova de que é possível sim! Eu também. 🙂

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14 comentários sobre “Sobre os encontros bons da vida

  1. Lindo texto!

    Tenho alguns professores que guardo na memória e no coração de forma muito especial!
    Foram, além da profissão, incentivadores, conselheiros e verdadeiros amigos do peito.

    O importante, seja onde estiver(trabalho, estudos, família, mundo) é fazer o bem, muitas vezes uma boa postura, um ”bom dia, como vai?”, enfim, demonstrar interesse, pode melhorar e até salvar uma vida (quantas pessoas não estão pensando em fazer bobagem e ao escutar um ”fica calmo, vai dar tudo certo!” caem em si?)

    São coisas mínimas mas que estão tão em falta hoje!

    Inclusive em um dos últimos posts você fez sobre estar chateada pelo comportamento de algumas pessoas ai, olha como faz falta uma boa palavra, um olhar amigo, um abraço.

    Não importa onde esteja, continue sendo a boa diferença.

    Beijão

  2. Que história bonita, Aninha. Tirando claro, o episódio horrendo da agressão que você sofreu.
    Já dizia o poema que “o melhor conselho é um bom exemplo”. E este conselho você deu (e recebeu), fazendo o ciclo bonito e positivo da vida se manifestar.
    Que realização, hein “Fessora”, ver seu pupilo alçando vôos tão altos!
    Parabéns a ele e a você!
    Bjim
    Márcia

  3. Ana, lindo post!
    Eu também fui aluna de escola pública e isso nunca foi demérito para mim. Pelo contrário, tive professores muito bons e é da escola pública que guardo minhas melhores recordações da educação. Sim, tudo isso foi numa outra época: muito difícil, mas ainda havia um mínimo de respeito no ambiente escolar.
    Já tive vários tipos de aluno e passei por momentos pesados e desmotivantes nesta vida de professora. Mesmo assim, adoro lecionar e são casos como o de F. que dão força para a gente seguir adiante 🙂
    Beijo grande

  4. Ana! Como sempre seus textos fazendo a gente refletir sobre a vida, né? Eu acredito muito que quando se quer algo basta a gente correr atrás e acreditar em nossa capacidade que sem dúvida nossa realização será conquistada. E você é um exemplo disso. Eu imagino sua sensação ao encontrar seu ex-aluno e dizer que você foi a responsável por ele ter dado esse rumo à vida. Nossa, eu mesma sem conhecer esse rapaz estou orgulhosa dele e mais orgulhosa de você por ter tido um papel tão especial na vida do F. Tomara que muitas “Anas” influenciem positivamente a vida de muitos “F’s”. Tomara!
    Parabéns por você ser assim… tão especial! 😉
    Beijos.

  5. Aninha,
    Nem me fale,por muitos anos fui professora e alfabetizadora no Brasil e só mesmo quem está do lado de dentro para falar. É fácil dizer que professor tem vida mansa, 2 férias por ano, e outras “mordomias”… Mas enfim, quando escolhemos a profissão o fazemos por amor.
    Mas o que mais me incomodava nem era o baixo salário, e sim o fato de que muitas daquelas crianças só queriam mesmo tomar o café e almoçar. O resto, bem era apenas resto…
    Mas eu vou até pouco além, no que você disse sobre auto exclusão escolar, em meio as discussões sobre a de criação de cotas nas instituições de ensino superior para alunos oriundos
    de escolas públicas, (não estou me posicionando contra ou a favor), o fato é que uma disponibilidade maior de vagas com certeza mudaria o quadro da auto-exclusão.
    E você mocinha do rostinho de boneca (adorei a minha vizinha veio me visitar aqui na clinica e eu olhando meu celular no Instagram, ela viu tua foto e disse que vc parece com uma boneca, e é verdade.. Uma boneca de porcelana de tão linda!) Parabéns pelo SUCESSO e com certeza é fruto de muita dedicação e esforço!
    Beijos
    Lola

  6. Nossa, que profissao forte, professora de quimica e fisica? caramba, nunca pensei que essa docinho que escreve aqui é graduada em química!

    Que coisa boa vc deve ter sentido ao revê-lo nao?
    Mas Ana, pelo amor de Deus, um aluno ja te espancou? Jesus!! que horror…

  7. Muito linda e gratificante essa história. Imagino a alegria de ver a sementinha que você plantou brotando desse jeito!! Mas te falar que fiquei chocada com essa agressão que você sofreu, e sem poder fazer nada depois… Vc é muito forte, eu teria desanimado com certeza depois disso e deixaria manchar todas minhas lembranças boas do lugar… coisas de personalidade tipo A, hehehe…. Bjos

  8. Primeiro preciso comentar que achei que você estivesse fazendo doutorado “apenas”, mas então quer dizer que você já fez até pós-doutorado? Que máximo, Ana! Interessante também é que você fez isso tudo pra virar professora aí no Brasil (foi pra se prof. no Brasil mesmo), acabou se mudando pra Alemanha! Ah, a vida sempre nos mostrando que não sabemos nada sobre nossas próprias vidas, rs. Me deu um aperto no coração ler que você foi assaltada e espancada por um aluno, nossa Ana, fiquei muito triste com isso, não consigo nem imaginar o que você deve ter sentido (na hora E depois disso tudo). Esse post me fez te admirar ainda mais.

    beijos

  9. Ana, eu tinha ficado meio fã seu em função de suas postagens, mas ao ler essa, tive vontade de abraçar o seu coração. A solução para a escola no Brasil é conseguirmos transplantar esse sentimento existente no seu coração para o coração de cada cidadão brasileiro. Só assim conseguiremos exigir o direito à educação. Olha que exemplo lindo esse seu e do F.. É disso que precisamos. Não necessitamos tanto de Shoppings, top de moda, top de beleza feminina (incentivo de turismo sexual), e outros mais. A gente vai tentando um trabalho de formiguinha para incentivar o povo a cobrar mais ensino com qualidade.
    Sou engenheiro mecânico e durante minha faculdade dei aulas de Química (adoro) e Física. Me senti muito mais realizado dando aulas e ensinando o pessoal a lutar do que como engenheiro. Ana, com um país desse tamanho, não é possível que não melhoremos nosso modo de pensar e fazer.
    Adorei o seu post e adoro você também.
    Beijo,
    Manoel

  10. Muito bacana, Ana! EU tenho alguns amigos professores, lá no Rio onde o bicho pega tb. Eles contam das dificuldades, mas assim como você sentem o maior orgulho quando conseguem transformar a vida de alguém. Só tenho que te dar meus Parabéns! =) bjão

  11. Nossa, que surpresa boa mesmo! Eu me apaixonei por Química quando tive a primeira aula, química passou a ser meu mundo, daí decidi que ia fazer prova para a Cefeteq, a antiga escola técnica de Química no RJ, mas como eu era muito nova, tinha apenas 13 anos, meus pais não permitiram, porque a escola era longe e não ia ter quem me levasse. Hoje, fico imaginando o que teria sido de mim se eu não tivesse desistido da Química… uma ciência fantástica.

    É lamentável e vergonhoso o sistema de educação no Brasil. Muito triste o fato de muitas mentes brilhantes serem disperdiçadas por conta do descaso dos governantes. Descaso esse que resulta em violencia, mortes, doenças, má qualidade de vida, desesperança e por ai vai.

    Gostaria que muitas outras pessoas tivessem acesso a essa história e que a levassem como um exemplo, para não desistirem de seus sonhos, não importando o obstáculo, a pedra no caminho.
    Tenho uma leve idéia do quão gratificante deve ter sido reencontrar o F. e ver o rumo que sua vida levou. Isso não tem preço. Parabéns por ser um exemplo, ser batalhadora, por ter seguido em frente. E obrigada por mostrar que devemos persistir com nossos sonhos.

    Um grande abraço e fique com Deus! 🙂

  12. Aninha, seu post foi um túnel do tempo para mim! Me transportou lá para Minas onde eu também sempre estudei em escola publica e então, já naquela época, via de tudo e mais um pouco. Puxa… entre os meu amiguinhos tinha um que ia para aula descalço e anotava as aulas no papel de pão que a mãe dele amarrava com barbante em formato de “caderno”. Lembrei dele com o seu texto. Por onde andara o Reinaldo? Espero que bem! Anos atrás fui visitar minha mãe e peguei um ônibus para ir a algum lugar. Para minha surpresa o cobrador (ou trocador, como dizem lá em Minas) me reconheceu e me chamou pelo nome. Era o Ramon, o menino mais inteligente dos meus tempos de ginásio. Aluno exemplar que provavelmente não conseguiu ir para a faculdade por ter que trabalhar e sustentar a família. E assim o Brasil vai perdendo seus promissores talentos intelectuais. Uma pena… Que bom que seu ex-aluno, você, eu e mais um monte de gente conseguiu seguir em frente, né? 🙂

  13. Oi conterrânea,
    Tb fui professora,aliás minha familia sao todos professores mais de português.E hoje através do face reencontrei muitos ex-alunos que hoje estao na universidade ou já formados exercendo suas profissoes.Posso dizer que o que nós(professores) sentimos é muito mais que orgulho quando nos deparamos com um caso desses que vc descreveu é uma sensacao de :Eu fiz parte dessa história.Nunca lecionei em escolas públicas ,mais em por isso na particular nao deixei de conviver com problemas de famílias que eram levados para sala de aula através das criancas,de suas histórias e medos.Minha irma ensinou por alguns anos adolescentes em uma escola pública(Liceu do Ceará) e através dela pude sentir um pouco a realidade da escola pública.Nada fácil.Te parabenizo por tua forca e garra e por essa vitória que se materializou através desse aluno.Hoje nao leciono mais,apenas continuo ouvindo as histórias de minhas duas irmas e um irmao que seguem firme e forte nessa luta.Bjs e amei o post.

  14. Então que eu já era sua fã, daí vc me aparece dizendo que fez Química, daí vc me diz que fez PhD… Tudo tem limite, né? menos vc rs. Fiquei boba mesmo. Essa carinha engana.
    Sobre o assunto, fiquei emocionada com a história do seu aluno F. e chocada com a parte em que vc foi agredida por um aluno, mesmo que não fosse seu aluno. A situação do nosso sistema de educação é de fazer chorar. Casos como o seu, o do F. e o meu, que viemos do ensino público e conseguimos adentrar uma universidade federal ou estadual, são raros o que me entristece.

    De todas as formas, parabéns pela garra. Sua história é realmente impressionante e um exemplo.

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