Du ou Sie? Eis a questão!

Todo mundo que estuda a língua alemã deve estar familiarizado com o fato de que existem duas formas diferentes de lidar com pessoas, os benditos Du e Sie, as formas informal e formal em alemão do nosso “você, tu” e “senhor(a)”, respectivamente. Quem nunca passou por alguma situação embaraçosa ao trocar o Sie pelo Du? Essas duas palavrinhas são osso duro de roer e dependem inteiramente da situação que você se encontra. Acredite, até o alemães podem se confundir.

Para quem não está por dentro, a regra é clara: se você está falando com uma autoridade, pessoas do seu trabalho ou estranhos, deve-se usar a forma Sie. Entre amigos, conhecido, crianças, a forma informal Du prevalece. Parece fácil né? Mas na prática, a coisa é bem diferente e eu diria até um pouco confusa. Eu explico.

sieduEsses dias eu estava voltando pra casa e sentei do lado de uma moça que eu diria ter a minha idade  A moça se ajeita e eu percebo que ela vai descer. Antes que eu me mexesse ela pergunta: Werden Sie auch aussteigen? (A senhora também vai descer?). Parece estranho pra você também ou só pra mim? Eu ainda fico na expectativa de que pessoas mais jovens ou da minha idade se dirijam a mim por Du e não por Sie. Na nossa língua também temos os nossos pronomes de tratamento e até os respeitamos. Ninguém vai sair por dizendo “senhor” pra uma criança e nem “tu ou você, para uma pessoa mais velha, mas aqui a coisa é ainda um pouco mais restrita e eu ainda acho muito difícil me acostumar com o fato de chamar por Sie uma pessoa da mesma idade que eu. Eu nunca gostei que me chamassem de senhora no Brasil. :/

Imagina só: você sai pra encontrar com um amigo e alguns outros amigos do seu amigo, que você não conhece, aparecem e todos decidem passar algum tempo juntos batendo um papo. Será que se deve já de cara ir tratando os amigos do seu amigo por Du? Melhor não. Parece estranho, mas eu ainda me sinto muito desconfortável com isso e por isso nunca hesito em perguntar se a pessoa se importa de ser tratada por Du. No entanto, há, é claro, situações em que eu devo tratar as pessoas com o “Sie” em vez do “Du“. Por exemplo, eu não me atrevo a dizer “Du” para os vendedores de loja, velhinhos, funcionários públicos ou desconhecidos. Mas ainda acho estranho, por exemplo, tratar o vovozinho do meu marido por Du. É como seu eu tivesse chamando o meu avô de tu. Seria inimaginável se ele ainda estivesse vivo.

Eu acho tudo isso muito confuso e ainda vivo trocando os pronomes e passando vexame. Já falei dentro do elevador com um chefe do departamento onde trabalhei em Tübingen chamando o senhorzinho de Du. Já me dirigi com Du aos pais de um amigo do Kili, durante uma festa de aniversário onde todo mundo também se tratava por Du e recebi uma resposta com um Sie bem grandão na minha cara. Eu já tinha visto o casal umas duas vezes, mas nunca tinha realmente conversado com os dois. Só que vendo todo mundo na festa se tratando por Du, resolvi ficar mais à vontade. Humm…bad idea! O problema é que se você “Siezt” (usar o Sie, como se fala por aqui) alguém por muito tempo, você pode ser encarado como duro e não amigável. Por outro lado, se você “Duzt “alguém muito rapidamente, corre o risco de soar indelicado e desrespeitoso. Pra mim isso não só é confuso como também pode parecer uma barreira, determinando o quão próxima uma pessoa pode chegar de você.

comofas pra se chegar no Du? Em geral, apenas uma pessoa mais velha ou mais experiente pode oferecer o “Du” para você. Se oferece, significa que ela considera você como um amigo ou conhecido querido, alguém confiável ou está procurando te conhecer em um nível mais pessoal. Peraí, então se o meu chefe é mais jovem que eu, eu vou estar em um beco sem saída?! haha sim! Eu sou mais velha, mas meu chefe é mais experiente, então é ele que deve me oferecer o bendito Du!!!

Tem alemão que acha isso, assim como eu, uma coisa meio nonsense e encara essa regra com menos rigidez. Outros são mais metódicos e preferem preservar a respeitosa forma de tratamento do discurso alemão. Por exemplo, no novo curso, eu tenho duas professoras. Uma é bem jovem, está na casa dos 40 e a outra, eu diria, é uns 20 anos mais velha. A mais velha, logo no primeiro dia de aula nos perguntou se poderia nos tratar por Du e vice-versa. Claro que todo mundo concordou e achou isso bem legal da parte dela. A mais jovem, por outro lado, não “nos ofereceu o Du” e pelo jeito dela, vai continuar tratando todo mundo por Sie até o final do curso. O garoto mais novo da sala tem somente 17 anos e será chamado de senhor até o último dia. Será que isso significa que a primeira professora quer ser amiga de todos nós? Acho que não! Ela apenas está no grupo de pessoas que são mais flexíveis nesse ponto. No entanto, a segunda, prefere manter a sua certa distância. Bom, vá entender. Quem sou eu pra questionar?! Eu só acho que respeito pode ser imposto mesmo durante um discurso informal. Pra mim, é o seu comportamento, é o que você diz e não o pronome que usa que determina isso.

Foto daqui

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31 comentários sobre “Du ou Sie? Eis a questão!

  1. Tamojunto! Também passo vários vexames! O mais recente foi dentro da minha própria casa, quando a dona do apartamento veio ver como ia a reforminha do banheiro e se (re)apresentou pra mim (depois de quase dois anos) dizendo o primeiro nome dela e me dando um aperto de mão. Eu respondi que já sabia que o nome dela era aquele e logo levei um cutucão do meu marido. Na hora ele me explicou que aquilo significava que a partir de agora eu poderia chamá-la por du e que eu deveria ter dito o meu nome também para selar o acordo. Daí, pedi desculpas, disse meu nome e fiquei roxa de vergonha até a mulher ir embora.

  2. Querida Ana, eu não vejo a hora de chegar as férias, pois eu quero aprender um pouquinho de alemão no DW novamente! 😉 Nossa, agora você me fez lembrar da lição sobre o uso do ‘du’ e o ‘sie’ que num dos exemplos da lição, causou uma tremenda confusão entre o hospede e recepcionista de um hotel, e olha o nome do hotel ‘Aachen’ 😀 😀 😀 😀 😉

  3. Isso me confunde MUITO também, HAHAHAHA. Adorei o post, nasci aqui na Alemanha mas só vim morar aqui de fato agora, há 2 meses atrás. Como tenho de ir à escola, sou obrigada a falar alemao sempre, o que é bom, mas também tenho de me adaptar com essa coisa de chamar os professores de “Sie” e os amigos de “du”. É, queridos, é pesado… HAahhahah

    • Oi Clarissa! Seja bem-vinda aqui! Que legal sua história, agora fiquei curiosa pra saber como você está levando suas aulas. Já sabia falar alemão antes de vir?
      bjão

      • A gente se vira, né? Na hora do aperto, começamos a nos conhecer e tal, e essa coisa de autoconhecimento é muito gostosa. Meu pai é alemão, mas nunca treinou a língua comigo porque ele tinha de aprender português, já que tava morando no Brasil. Quando eu tinha uns 3 anos de idade, eu falava alemão, mas daí eu fui pro Brasil e puff, esqueci tudo. Agora, resolvi voltar pra Alemanha pra aprender a língua e viver novas experiências. To levando as aulas, basicamente, pelo Google Tradutor e por uma coisa maravilhosa chamada dedução hahahahah adorei sua dedicação com os leitores, isso é muito amável! 🙂

  4. esse negócio de Du e Sie é compricadomermo rs, mas sabe eu pros amigos do marido e que eu considero meus tb eu digo Du, no trabalho o normal seria falar Sie com todos, mas eu cheguei e fui chamando todo mundo de Du pq além do Sie as vezes tinha que me referir as colegas pelo nome de família o tal do Frau alguma coisa, só que os nomes de família alemaes sao as vezes compricados, aí eu comecei a chamar todo mundo de Du e pelo primeiro nome, as colegas me levaram na boa pelo fato de eu ser estrangeira e brasileira, alegre, de um mundo país que eles consideram muito legal, todo mundo me chama tb de Du ou pelo meu primeiro nome, mas os chefes esses eu quiz mesmo preservar o Sie e o preservo até hj pra manter o respeito dos dois lados.

  5. Ana, esse é “um problema” mesmo. Claro que eu entendo a diferença do uso de um e outro … mas não consigo “sentir”, sabe? Não está enraizado em mim. Quando alguém me chama de “Ana” e logo em seguida pergunta assustado “está ok te chamar de Ana?” eu já respondo “lógico que está”, mas pensando “puxa, TANTO FAZ, tô nem aí”. kkk Mas já aconteceu várias vezes, na hora de falar/retrucar/reagir a algo rápido eu soltar um DU pra um estranho. Dá vontade de cavar um buraco e entrar nele. Faz parte, rs!!! Bjo

  6. Nossa, que post interessante! Eu só comecei a aprender alemão agora, e como não tive oportunidade de praticar muito, a questão do du e do sie não foi um problema ainda, mas de fato, é bem estranho alguém da sua idade se dirigir a você como sie, né? Eu comentei isso com meu namorado (que estudou alemão) e ele disse que isso é normal, que é só questão de se acostumar e associar o sie com pessoas mais velhas ou que você não conhece e o du para os mais chegados.

  7. Aninha, alemao é a razão de todas as minhas rugas precoces!
    Vou ter que reencarnar pra aprender esse trem direito! Mas eu chego lá!
    O cimplicado aqui pra usar o Sie é que fora o dilema da idade, porque já me deparei com muita gente nova extremamente formal. Também tem a questao dos mais velhos que preferem ser chamados de du!
    Aquela velha prática dos mais velhos do Brasil, que quando a gente falava Senhor/Senhora quase xingavam a gente!
    Eu simplesmente espero a reação da outra pessoa e geralmente funciona! Se alguém já se dirige à mim por du ou Sie eu respondo à mesma altura!
    Até agora tem funcionado!
    Mas você é brilhante amiga, logo,logo estaremos wirklich gut nesse alemão danado!
    Um beijo grandao, coração!

  8. Que complicadinho, hein? Com certeza eu também faria essa miscelânea. Se em português a gente já confunde algumas coisas em outro idioma então nem se fala.

    A Ray comentou bem essa questão do “tack” pra tudo por aqui. No início é estranho, mas com o tempo a gente se acostuma e acaba ficando meio que automático. Agora, com relação ao tratamento de “você” ou “senhor”, confesso que nunca percebi nada. Pelo que vejo não há hierarquia, porém o gesto e a postura são os que realmente ditam as regras de tratamento.

    Boa sorte com o aprendizado! 😉

  9. Nossa que confusão Anna! acho alemão um tanto complicado rsrs…….Isso é meio parecido aqui na España qdo usamos o Tu e Usted. Usted só se usa para pessoas maiores e autoridades e mesmo assim muitos maiores não querem ser chamados de usted “vai saber” kkkkk e o Tu é o informal. No Brasil que somos acostumados a chamar as pessoas de Sr. e Sr. aqui fico totalmente confusa tbm ao falar com determinadas pessoas….bjokas

  10. Percebi que essas línguas germanicas tem mais esse lance de formalidade, o que acredito que advem da cultura individualista e privativa desse povo.

    No inicio achava super estranho várias coisinhas por aqui, por exemplo, (“tenho” vários exemplos, mas só consegui pensar nesse –‘) aqui na Suécia agradecem por tudo, por coisas muito simples que não falamos no Brasil. É “tack” aqui e acolá, quase no final de todas as frases (cazuza feelings)… e eu achava estranho agradecer tanto, confesso que as vezes me sentia mal, pq não era do fundo do coração rs… e se eu não falasse poderia sair como mal educada :/
    Para vc ter uma ideia tem a expressão: “tack for senast”, que é para agradecer o último encontro. De tanto pensar no “tack” como um acessório para deixar a frase mais bonitinha, hoje ele sai no automatico, claro que em algumas situações eu realmento estou agradecendo, mas dai uso outra entonação. 🙂

    Bom, eu tentaria pensar no “sie” cm tratamento para pessoas que não conheço apenas, não pensaria nele mais como “senhora”, pensaria como um nome para os estranhos ou para pessoas que tem um cargo especial, tipo “ah, vou chama-los de “sie” para ficar mais bonitinho”, talvez ajude. Rs

    Concordo com vc que respeito é muito mais do que um pronome. E para mim o “sie” mais distancia as pessoas, do que qualquer outra coisa.

    Beijos Aninha linda confusa! ;*

  11. Aprender outra lingua nao e facil ne, nao e so o conjunto de palavras mas a dinamica que se usa e muitas vezes sendo diferente de onde vemos. Mas enfim, faz parte do aprendizado essas coisas.
    Beijinhos

  12. Quando morei em Berlim, fiquei muito viciada no Du, porque só usava ele aí. enquanto no Brasil, eu era viciada no Sie. Tive um pouco de medo de levar algum “fora” ou usar Du com os policiais mas graças a deus nada aconteceu. No meu curso até os professores usavam informal mesmo.

    Isso é muito complicado mesmo. Acho bem diferente do Brasil. É raro e descortês usar “senhora/senhor” pra jovens no Brasil.

    Beijos!!

  13. oi ana tudo bem?

    Sinceramente eu tb acho essa regrinha confunde a minha cabeça, mas por outro lado eu acho até melhor chamar de Sie pelo fato de não precisar conjugar o verbo kkkkkkk no meu caso eu sempre preferi usar o Sie por esse motivo e muitas vezes os alemães respondiam ” Du bitte”, ou seja, na duvida eu usava o Sie sempre rs pela a comodidadede não precisar quebrar a cabeça rs e sempre achei melhor pecar pela formalidade do que pela forma que eles julgam desrespeitoso rs

    Beijos

  14. que belezura de post! (e agora com animação renovada de comentar pois sei que, nem que seja na pasta spam, vc vai me achar rsrsr e olha, acho q só foi pro spam qd copiava e tentava comentar repetido, ou seja, Fários comentarios meus estarão no limbo essa hora)
    menina, q dificuldade isso aí! pq, ne, chamo minha Leherin de du, mas fico querendo usar o Sie pra treinar as conjugações e pra colocar em uso, ne…. acho mt estranho. ja tive contato com isso no pouco tempo em que fiz frances, e mesmo no italiano, mas no alemão o buraco é bem mais embaixo… obviamente por fatores culturais.
    de qualquer maneira, acho lindo! aspectos linguisticos me atraem muito!

  15. Aninha, acho isso confuso até em português às vezes, já que por querer ser respeitoso você pode chamar alguém de senhor e levar aquele típico “o senhor está no céu” na cara rs. Em francês, já fomos avisados pela professora a usar sempre o vous e deixar que a pessoa, se quiser, te pedir para usar o tu. Eles até tem uma palavra para isso e eu acho fofo. Tutoyer.
    Antes eu achava estranho me dirigir a alguém mais velho que eu usamdo o you em inglês. Hoje vejo a praticidade.
    Beijo

  16. Ana, passa a ser um pouco complicado isso, não é? Nós brasileiros somos menos formais e se olharmos os cariocas, então… Mas a gente tem que dançar conforme a música. É uma coisa que não melhora e nem piora a vida da gente, todavia o pessoal faz questão disso e a gente tem que se adaptar. No começo é mico para todos os lados porque o conceito é um pouco diferente do nosso “senhor(a)”. Aqui é mais em função da idade mesmo, e quando o sujeito me chama de senhor eu já penso: Putz…tô ficando velho!
    Um beijo, Ana.
    Manô

  17. Ai Ana, isso é complicado. Por via das dúvidas eu uso sempre o Sie, mas as vezes escorrego e solto um du! Quando eu percebo, corrijo rápido e volto para o Sie. Agora tem gente que é só se permite ser tratado por Sie e pronto, nada de ousadia não., rs… tive uma professora de alemão que era assim, nada de intimidade, rs… Ela sempre corrigia quem a tratava por “du”.
    Igual a você, eu também acho estranhíssimo tratar um senhorzinho(a) por du, só porque é da família, rs.. no Brasil seria uma falta de respeito não tratá-lo(a) por Sr ou Sra.
    Uma hora a gente entra no ritmo, rs… Bjs

  18. Essa questão é um terror! Tem hora que a gente não sabe mesmo o que usar. Quando eu visitei a família do meu Mitbewohner eu chamei a mãe dele de Sie por um tempo, até que ela colocou a mão no meu ombro (!!!) e disse que eu poderia chamá-la de du. Fiquei super feliz, mas nunca mais a vi. Engraçado, né? haha

  19. Impossível nao ficar perdido rs. Como eu trabalhei em várias empresas em que fui obrigada a tratar todos por senhor(a) nem acho mais estranho chamar um adolescente assim. É coisa de costume mesmo. Além disso, ás vezes acho que sou mais fria do que os alemaes rs. Confesso que quando eu conheco alguém tenho um comportamento bem mais distante (sou um gelo por fora mas por dentro é só amor haha 😀 )
    Enfim, particularmente eu acho um excesso de formalidade ser inflexível quanto ao tratamento. Concordo totalmente que respeito nao se resume a situacoes formais. O problema de entrar numa nova cultura é que você nao tem toda a carga social e de linguagem para entender todas as nuances comportamentais. Como no caso que você citou, ficou mais a vontade por todos estarem usando o Du, mas nao foi uma boa idéia. É muuuuiiito complicado viver numa outra cultura que difere da sua cultura e também de sua personalidade. Muita sorte e sabedoria para você, querida!

    Beijos

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