O dia dele – relato do meu parto cesárea

Dia 23 de fevereiro de 2017.

Acordei as 7 da manhã e já de cara não pude conter a loucura de sentimentos em que eu estava envolvida. A ideia de ter dormido com ele na barriga e acordar sabendo que em poucas horas ele seria retirado de dentro de mim ainda era difícil de aceitar. Tomei banho, chorei enquanto passava a mão na barriga pela última vez debaixo do chuveiro. Estava me sentindo estranha, difícil de descrever. Não era tristeza. Era uma espécie de inquietação, medo. Uma vontade de que tudo passasse muito rápido. Inevitavelmente um monte de pensamento negativo começou a me torturar. E se alguma coisa der errado? E se eu nunca mais voltar pra casa? E se ele não tiver pronto pra sair e tiver algum problema? E se, e se, e se…

Saí do banho, enxuguei as lágrimas, respirei fundo e disse pra mim mesma: calma, vai dar tudo certo! Comecei a expulsar da minha cabeça aqueles pensamentos horríveis afirmando que aquele era o DIA dele. Era o dia pelo qual eu tanto havia esperado e eu deveria me alegrar por isso. Que se dane se não vai ser como eu sonhei. Que se dane o meu egoísmo de achar que o jeito que eu queria era o jeito certo. Que se dane o corte na barriga. De uma vez por todas eu entendi que era pra ser daquele jeito. A ficha tinha caido. Eu estava a caminho da maternidade ter o meu filho.

Eu deveria chegar lá as 9 da manhã. Ela fica aqui do lado de casa. Literalmente 4 minutos de carro, então não me apressei. Era uma quinta, dia que eu completava semana de gravidez. Neste dia eu fazia 39 semanas e pra completar a evolução fotográfica da minha barriga, eu ainda tirei a última foto dela.

O parto

Chegando na maternidade recebi logo uma roupa e uma meia anti trombose. Me troquei e esperei na minha cama até as 12 horas, quando vierem me bucar e me levaram para a sala pré-parto. Lá fizeram controle de batimentos cardíacos e contrações. Minha cirurgia estava marcada para as 12:30, mas foi adiada por 1 hora por causa de uma cesariana de emergência. A moça da emergência teve bebê e voltou para o quarto sem ele. Em pouco tempo chega o médico pra dizer que o bebê estava com dificuldade de respirar e por isso teria que ser levado para a unidade intensiva por alguns dias. Ouvir essa moça chorar partiu o meu coração. Eu já estava até mais calma, mas essa notícia veio como uma bomba em cima de mim. Chorei por essa pessoa que nem o rosto eu tinha visto. Meu Deus, e se isso acontece comigo? Perguntei pro Kilian. Infelizmente nada está garantido, nada.

Poucos minutos depois chega uma médica com um aparelho de ultrassom. Eu pergunto pra ela: vocês estão fazendo tudo isso e se meu bebê tiver virado? Tem uns dias que ando sentindo movimentos lá embaixo. Ela responde: aí a gente cancela tudo e você vai pra casa esperar por mais contrações. Daí apalpa minha barriga, bem na área onde a cabeça dele sempre esteve e diz: mas eu garanto que ele não virou e me mostra na tela do computador. Que boba que eu sou! Ainda tive esperanças até o último momento!

Logo em seguida chega a anestesista e se apresenta. Eu senti uma paz imensa de conhecer aquela mulher! A enfermeira vem e coloca o cateter na bexiga (achei que seria uma dor horrível, mas não foi!) e me leva pra sala de cirurgia. Neste momento o Kilian teve que ficar do lado de fora. Era tanta gente naquela sala. Os médicos se apresentaram super simpáticos, perguntaram meu nome, o sexo do bebê e o nome dele e eu respondia tudo com os lábios tremendo de medo. Tremendo de medo da anestesia, de tudo. Uma enfermeira fica de frente pra mim e enquanto segurava forte as minhas mãos dizia que tava tudo bem, que logo tudo ia acabar e eu ia conhecer o meu filho. A anestesista foi explicando tudo o que fazia lá atrás. Primeiramente levei uma anestesia local e depois a espinhal. Não senti dor alguma! Que alívio! Em poucos segundos o bumbum começou a ficar dormente e assim também as pernas. Me deitaram e foram chamar o Kilian. Enquanto ele vinha, já levantaram aquele pano e eu ainda senti passarem algo gelado na minha barriga. Daí olhei pra anestesista e perguntei: de agora em diante eu não vou sentir mais nada? Nenhuma dor? Você me garante isso? Ela responde: Meine Liebe, der Bauch ist schon offen! (Minha querida, a sua barriga já está é aberta!). E eu digo assustada: Was? Echt? (Sério?). Ela ainda ri e diz: ja, Zauberei ist das! (Isso é tipo feitiçaria!). Nós começamos a rir juntas e eu acho que aquele foi o momento em que realmente eu me acalmei e vi que estava em boas mãos. Aconteceu tudo muito, muito rápido. Um dos médicos dizia o que acontecia lá do outro lado: “as perninhas nasceram”, “e agora o bumbum”, “é realmente um menino, você tinha dúvida?”, “e agora nasceu a cabeça”, “Willkommen Thomas, alles Gute” (seja bem-vindo Thomas, feliz aniversário!). De repende ouvi o choro dele. Tudo assim, em questão de poucos minutos. Imediatamente trouxeram o bebê pra mim e eu o toquei, beijei, cheirei, ainda todo ensanguentado. Nós chorávamos muito de tanta felicidade!

Enquanto me costuravam, levaram o bebê pra fazer os primeiros testes e tudo não demorou nem 10 minutos. Entregaram o bebê para o Kilian e finalmente eu pude viver o momento que tanto esperei. O nosso primeiro contato de pele. A melhor sensação que eu já vivi na minha vida! Mas ainda era tudo tão surreal. Eu não conseguia acreditar que ele estava comigo e era lindo! Lindo, lindo, lindo! Thomas nasceu com 3470 g e 49 cm, super saudável e logo procurando peito. Nós ficamos abraçadinhos por um tempão e quanto mais eu olhava pra ele, mais eu me apaixonava. Analisei cada pequeno detalhe do corpo dele. Tudo tão perfeitamente desenhado. Eu não parava de agradecer por aquele momento!

Depois da anestesia

As horas após o efeito da anestesia não foram nada bonitas. Meu filho estava lá, dormindo ao meu lado e eu não conseguia fazer mais nada a não ser chorar de dor. Eu sei que cada pessoa reage a dor de forma diferente. A minha experiência foi horrível! Eu não conseguia pregar o olho, mesmo com a medicação. Por volta das 10 da noite, depois que o Kilian foi pra casa (infelizmente não conseguimos um quarto privado) o bebê começou a regurgitar muito e eu fiquei louca sem saber o que fazer, já que não conseguia me mexer direito. Chamei a enfermeira que disse ser normal, era apenas líquido ingerido no parto. Ela disse que levaria ele se eu quisesse pra que eu pudesse dormir um pouco. Assim eu fiz. Eu não ia mesmo conseguir dormir preocupada com ele. Lá pelas 3 da manhã ela volta com ele e me diz que é o momento de eu levantar! Eu penso, como assim? Eu acabei de fazer uma operação de grande porte na barriga, como assim levantar pra ir ao banheiro? Ela tira a sonda e diz: a senhora vai ter que levantar. Vai doer muito, mas a senhora precisa levantar. Depois dessa primeira vez a segunda já não vai ser mais tão ruim.

Eu chorava (sou frouxa, eu sei) e achava que ia morrer de tanta dor. Tive que levantar usando só a força das pernas e segurando a barriga, sem o apoio dos braços. Tentei uma, duas, três vezes e nada de conseguir. Daí lembrei da moça que teve o bebê antes de mim. Lembrei também de uma amiga nossa que teve a bebê com 27 semanas e levantou logo depois do efeito da anestesia. As duas tinham uma coisa em comum. Tinham um bebê na sala de tratamento intensivo e precisavam ir ficar perto deles. Não sei de onde elas buscaram força, mas conseguiram. Já eu havia dormido enquanto alguém olhava meu bebê. Enfim, eu consegui levantar, andar encurvada até o banheiro e voltar. A enfermeira me disse que estava orgulhosa do meu esforço e me garantiu que a próxima vez não seria tão doloroso. E realmente não foi. Na manhã seguinte eu já consegui dar uma volta no corredor do hospital empurrando o bercinho do Thomas. Uma coisa que poucas pessoas me disseram é que depois da cesariana a gente só consegue andar encurvada, que precisamos literalmente aprender a andar novamente. Por isso os hospitais aqui na Alemanha só liberam a mulher depois de 4 ou 5 dias. No terceiro dia eu já conseguia andar melhor e passei a tomar menos remédio. Mesmo com a dor do pós-operatório eu devo dizer que a recuperação é rápida se a gente fizer tudo direitinho. Minha cicatriz já estava bem sarada no 4 dia e eu já não tinha mais tanta dificuldade pra andar. É importante ficar bastante tempo deitada, mas super importante também é se movimentar um pouco para que os tecidos voltem a crescer na região.

Eu tive muito medo. Medo de que meu parto fosse ser um momento de frustração, de que fosse me deixar traumatizada, de que eu não fosse conseguir amamentar após a cirurgia (assunto delicado que até merece um post). Mas depois de tudo eu confesso que foi um medo tão desnecessário. A equipe do hospital me passou muita segurança. Eu não me senti em momento algum desamparada. E melhor, a minha recuperação está sendo ótima. Ainda sinto dores, a região do corte é muito sensível e tenho sempre a sensação de que meus órgãos estão soltos dentro do abdômen. Mas nada que se compare à dor do primeiro dia. Eu respeitei a decisão do meu filho e de fato, a cirurgia foi a melhor escolha pra nós dois. Com ele nasceu também uma mãe, uma nova mulher. E apesar de tudo ainda estar complicado e muito difícil nesse comecinho, essa fase de conhecer ele melhor também está sendo muito gratificante. Eu me sinto realizada e agradeço a Deus todos os dias pela vida que Ele me permitiu trazer ao mundo.

Cada vez que olho pro meu filho eu tenho mais certeza de que a forma como ele veio ao mundo não importa. O que importa mesmo é que ele está aqui e saiu de dentro de mim. E então eu tenho muito orgulho de mim mesma!

o pai do meu filho

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Nós somos químicos e fotografia é uma grande paixão. Temos o gosto musical ridiculamente parecido. Fazemos amizades com muita facilidade, somos abertos a pessoas de várias culturas e nos interessamos por elas. Gostamos especialmente de levar uma vida simples. Ele mostrou e ensinou a menina nascida e criada na praia a se apaixonar pelas montanhas, a querer explorar mais a natureza. Juntos já conhecemos lugares fantásticos, vivemos experiências que eu nunca imaginei na vida que algum dia viveria.

Essa coisa de que os opostos se atraem só é verdade na física. No nosso relacionamento o que conta mesmo são as nossas afinidades. E como elas são muitas!

Nos encontramos pela primeira vez em dezembro de 2009 durante a festa de natal no instituto onde trabalhamos. Pensar que duas simples mudanças de planos tiveram o poder de mudar completamente as nossas vidas. Manchester era o destino que eu havia escolhido pra estudar e pra onde eu iria. Já ele não tinha certeza alguma se seria aceito na vaga de doutorado. Bem, eu fui mandada de última hora pra Mainz e ele foi aceito. Dois destinos que foram traçados através das decisões dos nossos chefes! De repente eu estava na Alemanha, na minha primeira confraternização com novos colegas de trabalho, batendo o maior papo com o cara mais legal da festa. Recém-chegada na Alemanha e completamente perdida, ele foi uma das primeiras pessoas que conheci e consegui manter contato. Ele foi uma das poucas pessoas que sem esforço demonstrou ser gentil, amigável e pronto pra me ajudar a encontrar o meu espaço. Ele foi praticamente o meu primeiro amigo aqui na Alemanha. Dois meses depois, há exatamente 7 anos atrás, no dia de São Valentim, nos beijamos pela primeira vez em um baile de carnaval. Ele estava vestido de viking, com uma tinta azul no rosto. Foi realmente ali que tudo começou. Foi o dia que escolhemos mais tarde como nosso. Não posso admitir que foi amor à primeira vista. Ele também não. De fato, foi um relacionamento moldado pelo tempo e pela distância. Depois que deixei a Alemanha e voltei pro Brasil levei quase 2 anos pra terminar o meu doutorado. Acredito que esse tempo foi crucial pra que nós pudéssemos ter certeza dos nossos sentimentos. Foi um período muito difícil, com muitas idas e vindas e despedidas dolorosas. Mas um período que também nos fez bem. Com o passar dos meses vimos que não fazia sentido vivermos separados. Nós queríamos definitivamente ficar juntos.

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Há 7 anos atrás eu finalmente tive a sorte de encontrar o meu amor tranquilo e essa é uma parte da nossa história contada em poucas linhas. Ela pode não ser a mais bonita ou digna de páginas de livros de romance. Mas ela é nossa. E é única. Hoje celebramos 7 anos juntos. Em alguns dias celebraremos a chegada do nosso filho, fruto do amor que construímos juntos e pelo qual eu sou tão grata. O nosso bebê tão desejado, que já amamos tanto, tanto! Em alguns dias uma outra parte da nossa história começará a ser escrita e eu mal posso esperar por isso. Sei que vai ser tudo novo, desafiador e assustador também. Mas o fato de ter tido essa pessoa ao meu lado em todos os momentos que precisei, e especialmente agora nessa reta final que está sendo tão delicada emocionalmente pra mim, só me faz ter mais certeza no coração de que eu escolhi para o meu filho o melhor pai do mundo!

Fotos tiradas por nós dois na Penísula de Snæfellsnes, Islândia, em Maio de 2016.