sobre os dias nos alpes com o bebê

sobre os dias nos alpes com o bebê

Essa viagem tinha tudo para ter sido o maior fiasco. Primeiro porque ela foi planejada de última hora. Segundo, porque eu era a única pessoa interessada nela. Eu queria ver neve e como aqui na região que moramos neva muito pouco, me veio a ideia de procurar acomodação em Berchtesgaden bem nas últimas semanas de dezembro. Obviamente que não encontrei nada e Kilian comemorou. Não satisfeita, comecei a procurar nas cidades vizinhas e acabei encontrando um air bnb bem charmosinho em Bad Reichenhall, que fica a uns 20 km do Königssee. Eu tinha certeza que iria ver neve, muita neve caindo do céu e espalhada pelo chão.

Uma vez que já estava tudo organizado, Kilian começou a se empolgar. Mas um dia antes da viagem decido olhar a previsão do tempo para os dias seguintes e veio aquela decepção. Chuva, tempestade, rajadas de vento e temperaturas acima de 5 graus. Tudo isso nos alpes, a região onde tem a maior probabilidade de ter neve nessa Alemanha! Como que cai neve do céu com uma temperatura dessas? Eu não desanimei e fui na confiança de que a previsão da região dos alpes é incerta e de que tudo poderia mudar.

Não mudou. Pelo menos nos dois primeiros dias. Kilian não pôde perder a oportunidade de rir da minha desgraça. No segundo dia, já entediados com o tempo ruim, resolvemos ir para uma Therme. O que novamente parecia não ter sido uma boa ideia. Dias de chuva durante o inverno aqui na Alemanha não dá outra. Todo mundo vai pra piscina. Fila de mais de 30 minutos pra entrar, Thomas chateado porque já era quase hora da soneca e eu me perguntando o porquê de não estar em casa, na nossa casa, debaixo dos nossos lençóis. Ufa! Conseguimos entrar. Muita criança gritando, chorando, piscinas lotadas. Thomas não se importou nem um pouco e como um verdadeiro Wassermaus (ratinho de piscina) se divertiu pra valer. Ele adorou observar todo o movimento e só de ver a alegria dele, esqueci o perrengue que foi pra entrar. O dia valeu muito a pena!

Felizmente os dias seguintes não tiveram previsão de chuva. Planejamos os nossos passeios, de modo que Thomas fizesse uma ou duas sonecas curtas no canguru e uma mais longa, por volta das 15 horas, quando retornássemos pra casa. Levamos o almoço dele, frutinhas (e mais os dois tetês!) para que ele passasse o dia super bem. Deu tudo certinho! Thomas está cada vez mais provando que é um super parceiro de viagem.

Infelizmente, neve caindo do céu nós não vimos. Mas vimos dias lindos amanhecer com o sol nascendo entre as montanhas, dissipando o nevoeiro e as nuvens baixas. Admiramos mais uma vez a beleza dos lagos alpinos, caminhamos por caminhos já conhecidos e nos demos conta do quão maravilhoso era estar de volta aquele lugar, dessa vez com o nosso filho.

E vimos neve sim! Neve não derretida no chão! Thomas brincou no chão nevado pela primeira vez na vida e mais parecia um bonequinho de neve ❤

Essa viagem tinha tudo pra ter sido o maior fiasco. Mas muito pelo contrário, ela foi maravilhosa!

adeus 2017

adeus 2017

Em 2018 eu quero mais dias como o de hoje, que foi regado de muitos raios de sol, amor, sorrisos genuínos e amizade verdadeira!

Obrigada por estar aqui! Significa muito pra mim saber que alguém lê e gosta do que escrevo. Obrigada por me seguir e me apoiar, mesmo que você faça isso silenciosamente. Meu objetivo aqui é compartilhar a nossa vida da maneira mais positiva possível, a fim de inspirar e trocar experiências. Eu escrevo aqui com o coração, faço isso porque adoro. Este espaço é uma grande fonte de alegria, criatividade e conforto e apesar de escrever principalmente pra mim, eu adoro saber que você gosta daqui! Então, mais uma vez obrigada!

Desejo um pacífico, feliz e frutífero 2018!

Pam, obrigada pela tua amizade! Obrigada por ser um pedacinho da minha família aqui na Alemanha. Te encontrar através desse blog foi uma das coisas mais bonitas que aconteceram na minha vida!

doce dezembro

doce dezembro

Eu sou uma amante do inverno. Engraçado quando eu digo isso aqui. Muita gente se assusta pelo fato de eu ser brasileira. Lembro muito bem do meu primeiro inverno na Alemanha. Recém-chegada e sem conhecer absolutamente ninguém, passei o meu aniversário, natal e ano novo sozinha dentro de um apartamento de 20 metros quadrados. Tirando a parte que chorei de solidão, eu lembro que chorei também de emoção de ver a neve cair pela primeira vez na minha vida. Lembro do cheiro, da sensação daquele momento. Lembro do medo que eu tive de sair de casa, da dor que sentia nos dedos dos pés e mãos por não saber me vestir direito. Lembro da euforia de finalmente estar vivendo num país frio, mas também do sufoco que foi conseguir me adaptar aquela grande mudança. Dezembro de 2009, foi um mês marcante na minha vida. O começo de uma nova vida. Foi nesse mês que eu me apaixonei pelos dias frios do inverno. Muitos anos já se passaram e eu ainda continuo esperando como uma criança a primeira neve do ano cair. Não me chamem de louca, mas é bem isso mesmo. Eu, nascida e criada no calor do Ceará, amo os dias frios, amo a neve! Aliás, alguém percebeu que tem neve caindo aqui no blog?

Bom, os dias curtos eu já não aprecio tanto assim. Eu acordo cedo, algo que não tenho mais escolha desde que fui “arrumar” um despertador que me acorda antes das 7 da manhã, sem aquela opção soneca, sabe? Ainda ficamos na cama trocando beijinhos e curtindo o aconchego até a hora que o papai levanta pra ir tomar banho. Visto minhas meias de lã, coloco um cardigan e vou fazer o meu café. Acendo as luzes, coloco baby no chão da cozinha, que é bem quentinho devido ao nosso “Fußbodenheizung”, e ele fica brincando com minhas colheres de pau e me admirando enquanto canto Johnny Cash. E começamos assim o nosso dia.

Quase sempre é um esforço imenso sair de casa nessa época do ano. Especialmente quando se precisa de meia hora pra vestir camadas e camadas de roupa, em mim e no bebê. Isso não é lá uma das coisas que Thomas aprecia. Requer habilidade, força e muita paciência. As vezes pegamos a primeira luz do dia, outras vezes a última. As vezes temos a sorte de sair num dia bem frio, onde o gelo se acumula sobre a superfície das plantas ou num dia de neve caindo. É vida que acontece ao nosso redor e apesar do esforço, eu sempre me alegro de ter deixado o quentinho da nossa casa.

Thomas gosta de estar do lado de fora. Eu percebo isso no comportamento dele, em dias de muita chuva, por exemplo, em que não conseguimos sair de casa. Ele fica impaciente e age como se estivesse me dizendo “me tira desse forno, por favor”. Logo em breve, quando ele já estiver andando seguramente, o ar livre vai ser o quintal da nossa casa. Há tantas coisas pra ele explorar! Mal vejo a hora de isso acontecer. Espero que ele continue gostando de caminhar comigo, conosco.

Dezembro é o meu mês. Há alguns dias atrás eu tive o privilégio de completar 35 anos de vida. Mais um dezembro, mais um ano de vida. Quem diria que oito anos depois do meu primeiro dezembro em Mainz sozinha, eu estaria comemorando os meus 35 anos com um bebê tão querido nos braços. Papai esteve em casa. Acordamos cedo como de costume, fizemos um excelente café da manhã juntos e depois fomos caminhar na floresta. Eu queria ter uns registros bonitos desse dia e queria também aproveitar que o cabelo estava lavado e bonito! A noite saímos para jantar. Nada de festa, nada de convidar amigos, nada de presentes. Eu queria aproveitar o meu dia somente com eles. E foi tão bom assim. Meu presente desse dia são essas fotos. Recordações lindas que valem mais que qualquer bem material.

Daqui uns dias acaba dezembro. Dizer o quê? Esse ano passou voando mesmo! Não canso de repetir isso. Olha só o tamanho de Thomas! Ele já está um meninão. Que loucura, daqui a 2 meses ele completa um ano de vida! Bom, mas enquanto isso ainda temos Natal e Réveillon para comemorar. Tem muita coisa linda para acontecer no restinho deste mês!

Quero aproveitar esse post, que será o último deste ano, para desejar um feliz Natal e fim de ano maravilhoso para todos vocês que me acompanham. Escrevi muito pouco esse ano, bem menos do que planejei, but, alas…essa vida exclusiva de mãe não é fácil. Talvez 2018 seja um ano mais produtivo por aqui!

Que 2018 seja doce!

lembranças do outono

lembranças do outono

Eu senti que o outono passou rápido. Na verdade, essa é a sensação que tenho pra tudo depois que tive bebê. No ano passado, enquanto ainda estava grávida dele, fiz inúmeros planos de aproveitar bem a minha estação favorita passeando com Thomas. Infelizmente não aconteceu como eu havia desejado. Primeiro porque este outono foi molhado. Choveu muito nos meses de outubro e novembro e por isso tivemos que passar vários dias do outono em casa. Segundo, porque eu tive que abrir mão de fazer muitas coisas por causa das sonecas dele, inclusive de sair de casa no fim da tarde.

Cancelamos muitos passeios agendados devido ao tempo ruim. Pelo menos a trilha que tínhamos planejado na Suíça Saxônica não foi cancelada. Mas nos dias que deu certo sair de casa, teve nenê brincando debaixo da macieira e em cima de abóboras na casa da tia do Kilian.

Teve muita soneca de meia hora no carrinho. E muitas fotos no chão brincando com as folhas. A minha parte favorita! Mamãe teve que tirar muita folha da boca dele e barro das unhas. Teve dia que sacrifiquei a soneca da tarde para poder apreciar o pôr-do-sol no parque. Como ele se divertiu nesse dia!

Teve dia de passeio na floresta, aonde sempre vamos com muito prazer. Onde a luz, as plantas, a atmosfera tanto me fascinam!

Teve foto de ursinho nas folhas! Eu sempre quis ter uma dessas <3.

Teve passeio no parque de animais, mas ele não deu muita bola. Quem se divertiu mesmo fomos nós. Acho que ele ainda não entende muito de animais e tal. Talvez quando estiver maiorzinho passe a ver os animais de outra forma e se interesse por eles.

Teve Thomas posando de modelo lindo e estiloso para a mamãe <3. As minhas fotos favoritas dele!

E teve nós dois sendo fotografados por uma pessoa que não era o papai. As fotos lindas abaixo foram feitas por uma seguidora querida, que veio até Fürth passar uma tarde conosco. O nome dela é Fernanda (@felailareis), ela mora em Berlim e também ama fotografar. Amei muito essas fotos!

Que venha o próximo! Ano que vem ele já estará andando e com certeza iremos aproveitar muito mais da estação. Eu vivo intensamente o meu presente com ele, mas é inevitável não idealizar o nosso futuro. Esperar que a nossa vida mude para melhor, sonhar em fazer coisas bonitas com ele. O próximo outono vai ser ainda mais bonito do que este!

 

This life

This life

15 semanas de fraldinhas de pano espalhadas pela casa, várias horas de sonecas em cima da mamãe, horas e mais horas sendo carregado no sling, de gargalhadas e gritinhos de felicidade, de beijinhos com bafinho de leite e de sorrisos ao despertar. Você, pequeno ser humano, veio para nos mostrar o verdadeiro sentido da vida. Veio para nos ensinar o que é prioridade, para nos mostrar que o tempo que passamos com você deve ser intensamente aproveitado, cada segundinho. Até mesmo aqueles que exigem serenidade e paciência. A casa bagunçada, as roupas sujas podem esperar. Já o tempo contigo não. Ele passa rápido demais para ser desperdiçado. Você veio para colocar um sorriso bobo e apaixonado no nosso rosto. Você veio para nos mostrar que é possível sim um coração bater fora de um corpo. Você veio para roubar as nossas horas de sono, nos deixar exaustos. Mas acredite filho, nós não trocamos a vida contigo por nada nesse mundo. Porque você veio também para nos dar forças para cuidar bem de ti, para tornar ainda mais feliz quem já era, para nos apresentar uma nova forma de amar. Obrigada Thomas por ter nos escolhido!

meu primeiro dia das mães

meu primeiro dia das mães

O dia foi longo com bebê acordando já as 6 da manhã. A previsão era de pancadas de chuva e por isso a gente não fez planos de sair. Esperamos a chuva cair ao longo da manhã e nada. O céu aberto estava nos convidando para sair de casa. Foi aí que tive a ideia de visitar o jardim botânico de Erlangen, uma cidade universitária vizinha de Fürth. Eu já estive nesse lugar inúmeras vezes e nunca canso de visitar. É um lugar muito verde e de uma tranquilidade imensa. 

Eu amo verde, amo plantas e como eu queria muito fazer umas fotos para lembrar do meu primeiro dia das mães, aproveitei o cenário lindo de lá. 

Passeamos a manhã inteira pelo jardim e eu fiz umas fotos das minhas plantas favoritas. A previsão do tempo tardou mas não falhou. Saímos de lá antes do toró de chuva cair. Passamos a tarde em casa curtindo a chuvinha e a noite saimos pra jantar pela primeira vez com bebê no meu japonês favorito. Fui morrendo de medo! Medo que ele só chorasse e desse tudo errado. Mas pra nossa surpresa ele dormiu o tempo inteirinho! Deixou o papai e a mamãe jantarem sossegados e planejarem a nossa primeira viagem com ele. Vamos começar sem audácia, por um país pertinho mesmo. Iremos para a Bélgica em algumas semanas e eu mal posso esperar para ver como vai ser. 

Esse resumo do meu dia pode parecer bestinha pra quem lê. Mas pra gente, que teve a vida revirada de cabeça pra baixo, soa como uma conquista. Sentimos que as coisas estão devagar entrando nos eixos, se alinhando. Passar a manhã fora, jantar fora e planejar uma viagem tudo no mesmo dia? Nem de longe teria dado certo há algumas semanas atrás. Baby está crescendo rápido demais e como para isso não existe um botão stop, só nos resta mesmo curtir e registrar todo e qualquer momento com ele. 

Como eu me senti no meu primeiro dia das mães? Exatamente como tenho me sentido desde o dia em que me tornei uma: feliz! 

primavera a três

primavera a três

Eu passei a minha gravidez inteira literalmente sonhando com momentos como esse. Sonhando como seria caminhar entre árvores floridas com ele, tê-lo como principal motivo nas minhas fotografias, amamentá-lo da forma mais natural possível como na foto acima. Aos poucos muito do que eu idealizei tem se tornado realidade. Esse pequeno ser está conosco somente há dois meses, mas eu sinto que nós já fizemos tantas coisas juntos. Dizer que está sendo maravilhoso ser mãe dele parece muito óbvio. Mas é isso mesmo. É maravilhoso ser mãe desse bebê! É maravilhoso ver que todos os dias ele acorda um bocadinho diferente e com novas habilidades. É maravilhoso sorrir e já receber o sorriso dele de volta. É maravilhoso poder viver o que tanto sonhei. E é maravilhoso saber que temos uma vida inteira pela frente, várias primaveras como essa para vivenciar. Eu só queria era que o tempo fosse mais generoso e passasse um pouco mais devagar!

Felicidade nos define. Parece até que só agora é que a vida começou realmente a fazer sentido!

Mais fotos no meu perfil pessoal: @anaundkruemel

 

Oh Boy!

Oh Boy!

 

O tempo não perdoa. Passa rápido demais! Você já vai completar 2 meses de vida e já não é mais esse bebê recém-nascido que praticamente só dormia o dia todo. A vida contigo está ficando cada dia mais interessante. Cada dia é uma nova descoberta, um novo milestone. Sorrisos, barulhinhos novos, olhares atentos de quem realmente já me conhece como mãe. Olho essas fotos e já sinto uma saudade imensa dos teus primeiros dias aqui em casa. Uma saudade de fazer chorar!

“I’ll hold you for as long as you like
I’ll love you for the rest of my life”

[Calico Skies – Paul McCartney]

 

O dia dele – relato do meu parto cesárea

Dia 23 de fevereiro de 2017.

Acordei as 7 da manhã e já de cara não pude conter a loucura de sentimentos em que eu estava envolvida. A ideia de ter dormido com ele na barriga e acordar sabendo que em poucas horas ele seria retirado de dentro de mim ainda era difícil de aceitar. Tomei banho, chorei enquanto passava a mão na barriga pela última vez debaixo do chuveiro. Estava me sentindo estranha, difícil de descrever. Não era tristeza. Era uma espécie de inquietação, medo. Uma vontade de que tudo passasse muito rápido. Inevitavelmente um monte de pensamento negativo começou a me torturar. E se alguma coisa der errado? E se eu nunca mais voltar pra casa? E se ele não tiver pronto pra sair e tiver algum problema? E se, e se, e se…

Saí do banho, enxuguei as lágrimas, respirei fundo e disse pra mim mesma: calma, vai dar tudo certo! Comecei a expulsar da minha cabeça aqueles pensamentos horríveis afirmando que aquele era o DIA dele. Era o dia pelo qual eu tanto havia esperado e eu deveria me alegrar por isso. Que se dane se não vai ser como eu sonhei. Que se dane o meu egoísmo de achar que o jeito que eu queria era o jeito certo. Que se dane o corte na barriga. De uma vez por todas eu entendi que era pra ser daquele jeito. A ficha tinha caido. Eu estava a caminho da maternidade ter o meu filho.

Eu deveria chegar lá as 9 da manhã. Ela fica aqui do lado de casa. Literalmente 4 minutos de carro, então não me apressei. Era uma quinta, dia que eu completava semana de gravidez. Neste dia eu fazia 39 semanas e pra completar a evolução fotográfica da minha barriga, eu ainda tirei a última foto dela.

O parto

Chegando na maternidade recebi logo uma roupa e uma meia anti trombose. Me troquei e esperei na minha cama até as 12 horas, quando vierem me bucar e me levaram para a sala pré-parto. Lá fizeram controle de batimentos cardíacos e contrações. Minha cirurgia estava marcada para as 12:30, mas foi adiada por 1 hora por causa de uma cesariana de emergência. A moça da emergência teve bebê e voltou para o quarto sem ele. Em pouco tempo chega o médico pra dizer que o bebê estava com dificuldade de respirar e por isso teria que ser levado para a unidade intensiva por alguns dias. Ouvir essa moça chorar partiu o meu coração. Eu já estava até mais calma, mas essa notícia veio como uma bomba em cima de mim. Chorei por essa pessoa que nem o rosto eu tinha visto. Meu Deus, e se isso acontece comigo? Perguntei pro Kilian. Infelizmente nada está garantido, nada.

Poucos minutos depois chega uma médica com um aparelho de ultrassom. Eu pergunto pra ela: vocês estão fazendo tudo isso e se meu bebê tiver virado? Tem uns dias que ando sentindo movimentos lá embaixo. Ela responde: aí a gente cancela tudo e você vai pra casa esperar por mais contrações. Daí apalpa minha barriga, bem na área onde a cabeça dele sempre esteve e diz: mas eu garanto que ele não virou e me mostra na tela do computador. Que boba que eu sou! Ainda tive esperanças até o último momento!

Logo em seguida chega a anestesista e se apresenta. Eu senti uma paz imensa de conhecer aquela mulher! A enfermeira vem e coloca o cateter na bexiga (achei que seria uma dor horrível, mas não foi!) e me leva pra sala de cirurgia. Neste momento o Kilian teve que ficar do lado de fora. Era tanta gente naquela sala. Os médicos se apresentaram super simpáticos, perguntaram meu nome, o sexo do bebê e o nome dele e eu respondia tudo com os lábios tremendo de medo. Tremendo de medo da anestesia, de tudo. Uma enfermeira fica de frente pra mim e enquanto segurava forte as minhas mãos dizia que tava tudo bem, que logo tudo ia acabar e eu ia conhecer o meu filho. A anestesista foi explicando tudo o que fazia lá atrás. Primeiramente levei uma anestesia local e depois a espinhal. Não senti dor alguma! Que alívio! Em poucos segundos o bumbum começou a ficar dormente e assim também as pernas. Me deitaram e foram chamar o Kilian. Enquanto ele vinha, já levantaram aquele pano e eu ainda senti passarem algo gelado na minha barriga. Daí olhei pra anestesista e perguntei: de agora em diante eu não vou sentir mais nada? Nenhuma dor? Você me garante isso? Ela responde: Meine Liebe, der Bauch ist schon offen! (Minha querida, a sua barriga já está é aberta!). E eu digo assustada: Was? Echt? (Sério?). Ela ainda ri e diz: ja, Zauberei ist das! (Isso é tipo feitiçaria!). Nós começamos a rir juntas e eu acho que aquele foi o momento em que realmente eu me acalmei e vi que estava em boas mãos. Aconteceu tudo muito, muito rápido. Um dos médicos dizia o que acontecia lá do outro lado: “as perninhas nasceram”, “e agora o bumbum”, “é realmente um menino, você tinha dúvida?”, “e agora nasceu a cabeça”, “Willkommen Thomas, alles Gute” (seja bem-vindo Thomas, feliz aniversário!). De repende ouvi o choro dele. Tudo assim, em questão de poucos minutos. Imediatamente trouxeram o bebê pra mim e eu o toquei, beijei, cheirei, ainda todo ensanguentado. Nós chorávamos muito de tanta felicidade!

Enquanto me costuravam, levaram o bebê pra fazer os primeiros testes e tudo não demorou nem 10 minutos. Entregaram o bebê para o Kilian e finalmente eu pude viver o momento que tanto esperei. O nosso primeiro contato de pele. A melhor sensação que eu já vivi na minha vida! Mas ainda era tudo tão surreal. Eu não conseguia acreditar que ele estava comigo e era lindo! Lindo, lindo, lindo! Thomas nasceu com 3470 g e 49 cm, super saudável e logo procurando peito. Nós ficamos abraçadinhos por um tempão e quanto mais eu olhava pra ele, mais eu me apaixonava. Analisei cada pequeno detalhe do corpo dele. Tudo tão perfeitamente desenhado. Eu não parava de agradecer por aquele momento!

Depois da anestesia

As horas após o efeito da anestesia não foram nada bonitas. Meu filho estava lá, dormindo ao meu lado e eu não conseguia fazer mais nada a não ser chorar de dor. Eu sei que cada pessoa reage a dor de forma diferente. A minha experiência foi horrível! Eu não conseguia pregar o olho, mesmo com a medicação. Por volta das 10 da noite, depois que o Kilian foi pra casa (infelizmente não conseguimos um quarto privado) o bebê começou a regurgitar muito e eu fiquei louca sem saber o que fazer, já que não conseguia me mexer direito. Chamei a enfermeira que disse ser normal, era apenas líquido ingerido no parto. Ela disse que levaria ele se eu quisesse pra que eu pudesse dormir um pouco. Assim eu fiz. Eu não ia mesmo conseguir dormir preocupada com ele. Lá pelas 3 da manhã ela volta com ele e me diz que é o momento de eu levantar. Eu penso, como assim? Eu acabei de fazer uma operação de grande porte na barriga, como assim levantar pra ir ao banheiro? Ela tira a sonda e diz: a senhora vai ter que levantar. Vai doer muito, mas a senhora precisa levantar. Depois dessa primeira vez a segunda já não vai ser mais tão ruim.

Eu chorava (sou frouxa, eu sei) e achava que ia morrer de tanta dor. Tive que levantar usando só a força das pernas e segurando a barriga, sem o apoio dos braços. Tentei uma, duas, três vezes e nada de conseguir. Daí lembrei da moça que teve o bebê antes de mim. Lembrei também de uma amiga nossa que teve a bebê com 27 semanas e levantou logo depois do efeito da anestesia. As duas tinham uma coisa em comum. Tinham um bebê na sala de tratamento intensivo e precisavam ir ficar perto deles. Não sei de onde elas buscaram força, mas conseguiram. Já eu havia dormido enquanto alguém olhava meu bebê. Enfim, eu consegui levantar, andar encurvada até o banheiro e voltar. A enfermeira me disse que estava orgulhosa do meu esforço e me garantiu que a próxima vez não seria tão doloroso. E realmente não foi. Na manhã seguinte eu já consegui dar uma volta me arrastando no corredor do hospital empurrando o bercinho do Thomas. Uma coisa que poucas pessoas me disseram é que depois da cesariana a gente só consegue andar encurvada, que precisamos literalmente aprender a andar novamente. Por isso os hospitais aqui na Alemanha só liberam a mulher depois de 4 ou 5 dias. No terceiro dia eu já conseguia andar melhor e passei a tomar menos remédio. Mesmo com a dor do pós-operatório eu devo dizer que a cicatrização é rápida se a gente fizer tudo direitinho. Minha cicatriz já estava bem sarada no 4 dia e eu já não tinha mais tanta dificuldade pra andar. É importante ficar bastante tempo deitada, mas super importante também é se movimentar um pouco para que os tecidos voltem a crescer na região.

Mesmo assim eu tive muito medo. Medo de que meu parto fosse ser um momento de frustração por querer tanto um parto normal, de que fosse me deixar traumatizada, de que eu não fosse conseguir amamentar após a cirurgia (assunto delicado que até merece um post). Mas depois de tudo eu confesso que foi um medo tão desnecessário. A equipe do hospital me passou muita segurança. Eu não me senti em momento algum desamparada. Ainda sinto dores, a região do corte é muito sensível e tenho sempre a sensação de que meus órgãos estão soltos dentro do abdômen. Mas nada que se compare à dor do primeiro dia. Eu respeitei a decisão do meu filho de permanecer sentadinho e de fato, a cirurgia foi a melhor escolha pra nós dois. Com ele nasceu também uma mãe, uma nova mulher. E apesar de tudo ainda estar complicado e muito difícil nesse comecinho, essa fase de conhecer ele melhor também está sendo muito gratificante. Eu me sinto realizada e agradeço a Deus todos os dias pela vida que Ele me permitiu trazer ao mundo.

Hoje, cada vez que olho pro meu filho eu tenho mais certeza de que a forma como ele veio ao mundo não importa mais. O que importa mesmo é que ele está aqui e que saiu de dentro de mim. E então eu tenho muito orgulho de mim mesma.

o pai do meu filho

o pai do meu filho

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Nós somos químicos e a fotografia é a nossa grande paixão. Temos o gosto musical ridiculamente parecido. Fazemos amizades com muita facilidade, somos abertos a pessoas de várias culturas e nos interessamos por elas. Gostamos especialmente de levar uma vida simples. Ele mostrou e ensinou a menina nascida e criada na praia a se apaixonar pelas montanhas, a querer explorar mais a natureza. Juntos já conhecemos lugares fantásticos, vivemos experiências que eu nunca imaginei na vida que algum dia viveria.

Essa coisa de que os opostos se atraem só é verdade na física. No nosso relacionamento o que conta mesmo são as nossas afinidades. E como elas são muitas!

Nos encontramos pela primeira vez em dezembro de 2009 durante a festa de natal no instituto onde trabalhamos. Pensar que duas simples mudanças de planos tiveram o poder de mudar completamente as nossas vidas. Manchester era o destino que eu havia escolhido pra estudar e pra onde eu iria. Já ele não tinha certeza alguma se seria aceito na vaga de doutorado. Bem, eu fui mandada de última hora pra Mainz e ele foi aceito. Dois destinos que foram traçados através das decisões dos nossos chefes! De repente eu estava na Alemanha, na minha primeira confraternização com novos colegas de trabalho, batendo o maior papo com o cara mais legal da festa. Recém-chegada na Alemanha e completamente perdida, ele foi uma das primeiras pessoas que conheci e consegui manter contato. Ele foi uma das poucas pessoas que sem esforço demonstrou ser gentil, amigável e pronto pra me ajudar a encontrar o meu espaço. Ele foi praticamente o meu primeiro amigo aqui na Alemanha. Dois meses depois, há exatamente 7 anos atrás, no dia de São Valentim, nos beijamos pela primeira vez em um baile de carnaval. Ele estava vestido de viking, com uma tinta azul no rosto. Foi realmente ali que tudo começou. Foi o dia que escolhemos mais tarde como nosso. Não posso admitir que foi amor à primeira vista. Ele também não. De fato, foi um relacionamento moldado pelo tempo e pela distância. Depois que deixei a Alemanha e voltei pro Brasil levei quase 2 anos pra terminar o meu doutorado. Acredito que esse tempo foi crucial pra que nós pudéssemos ter certeza dos nossos sentimentos. Foi um período muito difícil, com muitas idas e vindas e despedidas dolorosas. Mas um período que também nos fez bem. Com o passar dos meses vimos que não fazia sentido vivermos separados. Nós queríamos definitivamente ficar juntos.

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Há 7 anos atrás eu finalmente tive a sorte de encontrar o meu amor tranquilo e essa é uma parte da nossa história contada em poucas linhas. Ela pode não ser a mais bonita ou digna de páginas de livros de romance. Mas ela é nossa. E é única. Hoje celebramos 7 anos juntos. Em alguns dias celebraremos a chegada do nosso filho, fruto do amor que construímos juntos e pelo qual eu sou tão grata. O nosso bebê tão desejado, que já amamos tanto, tanto! Em alguns dias uma outra parte da nossa história começará a ser escrita e eu mal posso esperar por isso. Sei que vai ser tudo novo, desafiador e assustador também. Mas o fato de ter tido essa pessoa ao meu lado em todos os momentos que precisei, e especialmente agora nessa reta final que está sendo tão delicada emocionalmente pra mim, só me faz ter mais certeza no coração de que eu escolhi para o meu filho o melhor pai do mundo!

Fotos tiradas por nós dois na Penísula de Snæfellsnes, Islândia, em Maio de 2016.